
Artesã
Pra você meu cliente, vou explicar que tudo que me é encomendado já tem um cálculo feito pra que se sobrar material, seja pouco. Bem pouco mesmo, por isso gosto de conversar antes de passar o preço, pra saber exatamente o que você precisa. Do que sobra, isso vira o seguinte:
Tecidos
Quando o tecido é fornecido pelo cliente, a não ser que ele me doe, o restante é devolvido a ele.
Todos os tecidos que não são utilizados em outros projetos aqui mesmo, são depositados no Banco de Tecido (projeto lindo de morrer) e os que não são aceitos como depósitos são devidamente doados lá mesmo e o Banco os encaminha pra projetos sociais que trabalham com artesanato;
Feltro
As sobras de feltro que não são aproveitadas em outras encomendas, eu mesma reaproveito para enchimento
de peças pessoais (meus enfeites de Natal agradecem);
Lãs e linhas
As linhas e lãs faço também doações sazonais a instituições que trabalham com projetos parecidos, mas linha
é uma coisa complicada, nem todo mundo aceita a linha que você tem. Também doo a algumas amigas
que conhecem projetos que aceitam linhas de mais tipos não tão específicos, que encaminham pra asilos
e senhorinhas que ocupam seu tempo fazendo coisas fofas para o mundo.
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Os demais materiais quando não aproveitados por mim para outras coisas tem seu descarte correto, sendo destinados a reciclagem todos os que se enquadram nela.
Eu penso que artesanato não é apenas uma válvula de escape ou uma forma de complementar meu orçamento
e pagar as contas, mesmo que ambas as afirmativas sejam no meu caso também verdadeiras. Vai muito, muito além disso.
Eu passo lá no pensamento das guildas e de seus mestres, dos aprendizes que faziam absolutamente tudo com suas mãos. Que coisa mais linda fazer uso do seu corpo não só pra apertar um botão e olhar o dia todo pra uma tela que brilha. Que ótimo poder se concentrar naquilo que está sendo feito, na forma como está sendo feito e não só fazê-lo como mais uma tarefa mecânica. Artesãos dos tempos antigos sabiam como fazer e adaptar coisas como ninguém e com tão poucos recursos, que algumas de suas artes estão expostas até hoje em muitos lugares do mundo.
Acho triste que no mercado brasileiro a maioria do artesanato esteja ligada a coisas mal feitas, com pouca serventia e de baixo valor de mercado. Claro que há poucos que conseguem fazer com que isso seja diferente, mas muitos deles precisam sair do nosso país pra que isso aconteça. A grande maioria mortal fica aqui mesmo, vendendo seus "porta-coisas" para amigos e em sites que cobram porcentagens gigantes (as vezes quase seu lucro todo).
Acredito que o momento que o país está vivendo agora seja uma oportunidade para que essa visão de mundo artesanal possa mudar para melhor e espero de coração que seja um começo.
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E sobre mim? Sou arquiteta, trabalho com arquitetura, com artesanato, com fazer pessoas felizes, com fazer as coisas apenas com amor no que se faz. Se acabar o amor eu não faço mais, simplesmente por fazer.
​"O artífice explora essas dimensões de habilidade, empenho e avaliação de um jeito específico. Focaliza a relação íntima entre a mão e a cabeça". Richard Sennett
Eu, por mim
sem estoque
consumo consciente
Muita gente me pergunta por que eu não tenho um estoque e vendo em pequena escala. Por alguns motivos,
como esses aqui:
- Me preocupo com o consumo consciente das coisas. Se eu fizer um monte e não vender, pra onde isso vai?
E os materiais que não foram usados?! E as sobras de material? e o descarte consciente do que não pode ser reaproveitado por mim? (Aliás, explico isso melhor logo abaixo);
- Adotei (e tenho tentado praticar todos os dias um pouquinho mais) na minha vida, a tentativa de consumir menos e ter menos. Isso só está impossível ainda com livros e materiais de desenho, que não deixo nunca de ter
e de querer mais, mas uma coisa de cada vez. Assim tenho tentado ter menos coisas de estoque em casa,
menos linha, menos material e destinar cada vez menos espaço pras coisas, assim como já adotei
em boa parte da minha vida pessoal. E se vocês soubessem o bem danado que isso faz na vida, isso mudava muita coisa (e se vocês soubessem a trabalheira que dá tentar ser assim também);
- Não pretendo fazer produtos que você comprou pois só tinha essa opção; pretendo fazer aquilo que você realmente queria dentro das possibilidades cabíveis. Tudo aqui é mega personalizado. Se não fosse assim,
não seria artesanato.
- Algumas vezes me permito sim fazer um pequeno lote de produtos, mas já aviso que não é sempre; e quando acontece, são poucas unidades.
